Com 20 anos dedicados à arte, lafaietense encarna o camelô de Inhotim

Natural de Conselheiro
Lafaiete, o artista plástico Jorge Luiz Fonseca roda o país com uma galeria de
arte itinerante. Para isso, ele utiliza um trailler, que incorpora uma
exposição e diversas obras são vendidas como suvenires. São miniaturas que
reproduzem criações de artistas presentes no acervo de Inhotim, o maior museu a
céu aberto do mundo. Ao ser estacionado, esse trailer é aberto e forma a
instalação "Fiotim - A Oitava Maravilha do Mundo Contem-porâneo".
Junto à galeria, é
apresentado o personagem Jorge K, que assina a criação e interage com o pequeno
museu. O personagem é um arteiro-viajante que, por acaso, visitou um grande
museu e descobriu ali uma oportunidade de ganhar dinheiro. O que, para Jorge K,
não passaria de uma barraca de camelô tornou-se uma grande instalação com ares
de circo, parque de diversão, animais e jardins.
Para Jorge Fonseca,
enquanto o Fiotim estiver ocupando praças públicas, a arte estará indo ao
encontro do povo. “As pessoas que nunca entraram em um museu, ao contemplar
releituras de obras consagradas, serão instigadas a refletir sobre a arte e as
várias formas de manifestação do pensamento artístico contemporâneo”, afirma.
Como se fosse preciso,
ainda é usado um alto-falante, pelo qual é feito o convite para que as pessoas
possam conhecer as obras expostas em tamanho miniatura. Quem aceita o convite
pode observar um cenário lúdico, com reproduções em miniatura das imensas
instalações do museu mineiro a céu a aberto, Inhotim.

O artista autodidata
conta que a ideia surgiu de uma conversa com um primo que mora em Brumadinho.
“A certa altura, ele me falou, com seu jeito simples: Primo, Inhotim está igual
Aparecida do Norte. Essa fala dele detonou uma série de reflexões: Onde tem
romaria, tem camelô vendendo miniaturas dos objetos de adoração. Vou encarnar o
camelô de Inhotim, pensei. Daí, comecei a criar o Fiotim e lá se vão três anos
e meio de trabalho, que agora começa a ganhar as ruas”, comenta.
Atualmente, o Fiotim
está participando do Festival de Esculturas do Rio, apresentando-se em vários
bairros da cidade. Depois do Rio, Fonseca afirma que a ideia é percorrer outras
cidades que o convidarem e, na volta, há a pretensão de fazer uma parada em
Lafaiete, para uma apresentação conterrânea. “A nossa cidade natal a gente
nunca esquece. Além do mais, tenho família, grandes amigos e boas histórias vividas
em Lafaiete”, destaca, afirmando que a base do seu trabalho está nas suas
vivências por aqui, principalmente, da infância.
O artista cresceu no
bairro da Fonte Grande. E ainda criança, gostava de ficar no ateliê de costura
de sua tia Lulú, que era grande e tinha várias costureiras. Funcionava a pleno vapor para satisfazer,
principalmente, os gostos das mulheres da zona boêmia que existia ali, na beira
da linha do trem. “Já naquela época, me lembro que ficava fascinado por toda
aquela visualidade extravagante. As histórias rocambolescas e interessantes, as
músicas dos bares que a gente ouvia lá de casa, até altas horas. Tudo aquilo
chamava a minha atenção de menino
curioso que era – e ainda sou. Não é à toa que meu trabalho tem 'um pé' em
Nelson Rodrigues e Almodóvar. É o mesmo universo que gosto de explorar e
colocar nos meus trabalhos - irônico, trágico, mas, às vezes, muito belo. Gosto
de observar e falar das coisas da gente”, comenta.
20 anos de vida
artística

A efetivação do projeto
coincide com o ano em que o Jorge Fonseca comemora duas décadas de carreira
ininterrupta dedica à arte. “Com muitas vivências acumuladas, algumas boas e
outras nem tanto, mas que, de certa forma, serviram para pavimentar o meu
caminho. A gente vai aprendendo com a vida, com os acertos e os erros também”,
diz, definindo-se como um ‘artista operário’. “Vivo e penso em função do meu
trabalho”, acrescenta.
Jorge lembra que o
interesse pela arte surgiu no início da década de 90, quando ainda era
maquinista em Lafaiete. “Fazia viagens a Belo Horizonte e aproveitava o meu
tempo livre nos intervalos para visitar exposições e museus. Com o passar do
tempo, meu interesse foi crescendo e surgiu o desejo de ser artista também”,
conta. Sem formação em arte, ele resolveu ‘se virar’ com o que tinha de bagagem
pessoal. “Minha experiência como marceneiro e memórias da minha infância, o
rico artesanato e a estética da visualidade popular que tanto me atraíam.
Comecei a fazer as primeiras experimentações e a inscrever meus trabalhos em
salões de arte. Com o passar do tempo, já surgindo uma linguagem própria, fui
conquistando alguns espaços e prêmios, o que me deu condições e coragem para
seguir em frente”, revela.
Nesses 20 anos de arte,
Jorge construiu uma temática variada em suas obras. “Não me prendo a um tema ou
sequer tenho um estilo determinado. Gosto de explorar a estética popular.
Utilizo-a como um suporte inicial para compor os meus trabalhos”, explica. O
artista também se revela um adorador de histórias e acontecimentos cotidianos.
“Geralmente, minhas obras têm uma história pra contar, ou que os observadores
se identificam ou são estimulados a imaginar”. O longo período dedicado à arte
também possibilita a Jorge Fonseca empregar técnicas variadas como bordados,
recortes, colagens, marcenaria, pintura, entre outras. Os materiais também vão
desde tecidos, madeiras, latas, plásticos, ferro e o que tiver na mão. “Para
mim, o material não é o principal. O importante é o contexto e o conteúdo”.