Infarto em jovens: o coração não tem idade
Por muito tempo, o infarto foi visto como uma doença exclusiva dos mais velhos. Porém, pesquisas recentes de grandes centros internacionais mostram que cada vez mais jovens — alguns ainda na casa dos 20 ou 30 anos — estão sofrendo infarto. Essa tendência preocupa médicos e especialistas, porque representa não apenas um problema de saúde, mas também uma ameaça ao futuro produtivo de milhares de pessoas.
O retrato da realidade
Um levantamento feito nos Estados Unidos, analisando mais de 4 milhões de internações por infarto, mostrou que um em cada cinco casos ocorre em adultos jovens. No Brasil e na Europa, números semelhantes vêm sendo relatados. Essa constatação muda nossa forma de enxergar a doença: o coração não escolhe idade.
Entre os fatores de risco mais comuns nessa população estão a pressão alta (presente em quase 65% dos jovens infartados), o tabagismo (58%) e a obesidade. Mas outros elementos chamam a atenção: transtornos de ansiedade e depressão, histórico familiar de doença coronariana precoce e até questões socioeconômicas, como baixa renda e dificuldade de acesso a cuidados de saúde, aparecem como marcadores de risco. Além disso, temos os chamados “novos vilões”, fatores de risco descobertos mais recentemente.
Novos vilões do coração:
- O uso de anabolizantes tem sido mostrado em diversos estudos como fator capaz de induzir obstruções nos vasos do coração, enfraquecimento do músculo cardíaco, hipertensão, arritmias, dentre outros.
- O cigarro eletrônico (vape), muitas vezes vendido como alternativa “mais segura”, começa a mostrar seu lado perigoso. Pesquisas apresentadas em congressos internacionais sugerem associação com insuficiência cardíaca e arritmias. Ainda não há consenso definitivo, mas a tendência é de alerta crescente.
- Outro fator cada vez mais valorizado é a Lipoproteína(a), uma partícula ligada ao colesterol. Quando em níveis elevados, pode triplicar o risco de infarto precoce. O detalhe é que esse marcador muitas vezes não aparece nos exames de rotina e pode passar despercebido.
Quando o infarto não é “clássico”
Nos jovens, nem sempre o infarto vem do acúmulo lento de placas de gordura nas artérias. Muitas vezes, as causas são diferentes e até mais traiçoeiras.Uma das mais importantes é a dissecção espontânea da artéria coronária (SCAD), na qual a parede da artéria se rompe internamente, reduzindo ou bloqueando o fluxo sanguíneo.
Esse fenômeno, pouco conhecido do público, é hoje reconhecido como causa frequente de infarto em mulheres jovens, inclusive durante a gravidez ou logo após o parto. Outro quadro é o MINOCA, em que os exames não mostram entupimento significativo das artérias, mas ainda assim há sofrimento cardíaco e risco de complicações. Ambos exigem investigação detalhada e tratamento especializado, sob risco de passarem despercebidos.
Mulheres: riscos particulares
Quando o assunto é infarto em jovens, as mulheres merecem atenção especial. Além da SCAD, já citada, complicações na gestação, como a pré-eclâmpsia, aumentam de forma relevante o risco de problemas cardíacos anos depois.
Infelizmente, pesquisas também mostram que mulheres jovens com infarto recebem, com frequência, tratamento menos agressivo e apresentam maiores taxas de complicações em comparação aos homens da mesma idade. Isso revela uma lacuna no cuidado que precisa ser superada.
O que fazer para se proteger
A boa notícia é que a maioria dos casos pode ser prevenida. As recomendações continuam sendo simples, mas precisam ser levadas a sério desde cedo:
- Alimentação equilibrada, rica em frutas, verduras e com redução de ultraprocessados.
- Atividade física regular, ao menos 150 minutos por semana.
- Controle da pressão arterial e do colesterol com exames de rotina.
- Evitar tabaco, anabolizantes e cigarro eletrônico.
- Atenção ao histórico familiar e obstétrico: quem tem parentes que infartaram cedo ou já teve complicações na gravidez deve redobrar o cuidado.
Reconhecer os sinais salva vidas
O infarto em jovens pode ser subestimado justamente por parecer improvável. Mas os sintomas são semelhantes:
- Dor ou pressão no peito, que pode irradiar para braço, costas, mandíbula ou estômago;
- Falta de ar;
- Suor frio, náuseas e palpitações.
Ao menor sinal de alerta, a recomendação é clara: procurar imediatamente um serviço de emergência. O tempo é fundamental para salvar o músculo cardíaco.
Os infartos em jovens são uma realidade em crescimento. Ignorar esse problema é fechar os olhos para uma ameaça silenciosa. É hora de abandonar a ideia de que “infarto é doença de velho” e encarar que o cuidado com o coração começa cedo.
Cuidar do coração é cuidar do futuro. Afinal, o coração não tem idade — mas precisa de atenção em todas elas.
Sobre o autor
“Sou nascido e criado em Conselheiro Lafaiete. Formei-me médico na UFMG em 2010 e desde então completei residência médica de Clínica Médica, Cardiologia, Mestrado e Doutorado na mesma instituição. Agora volto a minha casa para poder ajudar a cuidar da saúde e proporcionar informações confiáveis de saúde”.
Serviço:
Diego Nascimento Moraes Cardiologista, Mestre e Doutor pela UFMG e HC de Belo Horizonte.
Atendimento às sextas-feiras, no Hospital Queluz, em Lafaiete Contato: 3062-3001 e 3763-1899 (WhatsApp)