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Maria Victória
Colunista

Maria Victória

advogada

Publicado em 28/08/2026 às 00:00

Golpes do amor e relações digitais

Quando o romance vira fraude

Tudo começa de forma quase cinematográfica.

Uma mensagem inesperada. Conversas que se tornam frequentes. Atenção constante, elogios generosos e aquela sensação agradável de conexão rápida — às vezes até intensa demais para parecer coincidência.

Em poucos dias, a rotina muda.

O celular ganha prioridade, o “bom dia” vira hábito e a história parece promissora. Até que surge o primeiro pedido.

Pode ser uma ajuda financeira temporária, um pix emergencial, um problema inesperado ou uma oportunidade que precisa de apoio imediato.

E então vem a pergunta que mistura afeto e cautela:

Quando o romance online deixa de ser relacionamento e começa a parecer golpe?

Infelizmente, esse cenário se tornou cada vez mais comum.

O amor entrou na internet — e os golpes também

Relacionamentos digitais deixaram de ser exceção há muito tempo.

Aplicativos, redes sociais e plataformas de conversa aproximam pessoas, criam vínculos reais e, em muitos casos, histórias felizes.

O problema é que o ambiente digital também abriu espaço para estratégias sofisticadas de fraude emocional.

Os chamados golpes sentimentais ou romance scams costumam explorar não apenas vulnerabilidades financeiras, mas principalmente a confiança construída dentro da relação.

E confiança, convenhamos, raramente vem acompanhada de senha ou antivírus.

Como esses golpes costumam acontecer?

Não existe roteiro único, mas alguns padrões aparecem com frequência.

O golpista geralmente investe em:

  • Contato intenso e rápido;
  • Demonstrações precoces de afeto;
  • Histórias emocionalmente envolventes;
  • Construção acelerada de intimidade;
  • Resistência a encontros presenciais ou videochamadas;
  • Justificativas frequentes para emergências financeiras.

Em muitos casos, a narrativa é cuidadosamente construída.

Pode surgir uma viagem interrompida, um problema médico, bloqueio bancário, dificuldade no exterior ou necessidade urgente de ajuda.

O pedido quase sempre vem acompanhado de urgência emocional.

E aqui existe um detalhe importante: esses golpes não dependem de ingenuidade.

Dependem de manipulação.

Fraudes emocionais costumam ser planejadas justamente para reduzir desconfianças e criar sensação de responsabilidade afetiva.

“Mas eu fiz o pix voluntariamente…”

Essa costuma ser uma das maiores dúvidas.

Se a transferência foi feita espontaneamente, ainda pode existir golpe?

Em determinadas situações, sim.

O fato de alguém ter realizado um pagamento não elimina automaticamente a possibilidade de fraude, principalmente quando houve engano deliberado, identidade falsa ou indução mediante informações fraudulentas.

Cada caso exige análise concreta.

A dificuldade costuma estar justamente na prova da manipulação e da intenção enganosa.

Por isso, guardar mensagens, registros de conversas, comprovantes e demais elementos pode ser importante.

O coração pode apagar contatos; o processo normalmente prefere documentos.

Perfis falsos e identidade inventada

Outra característica comum envolve perfis inexistentes ou identidades parcialmente falsas.

Fotos de terceiros, profissões inventadas e histórias idealizadas fazem parte de alguns esquemas.

Não por acaso, muitos golpistas evitam encontros presenciais, alegando viagens constantes, trabalho internacional ou circunstâncias extraordinárias.

O problema é que a ficção afetiva costuma durar apenas até o dinheiro chegar.

Depois disso, aparecem novos pedidos — ou desaparecimentos repentinos.

O famoso “último pix, eu prometo” raramente merece troféu de credibilidade.

E existe proteção jurídica?

Sim.

Dependendo do caso, podem existir medidas na esfera criminal e também pedidos de reparação civil pelos prejuízos sofridos.

Mas vale um ponto importante: recuperar valores nem sempre é simples.

Golpes digitais frequentemente envolvem contas intermediárias, dados falsos e rastreamento difícil.

Por isso, a prevenção continua sendo a melhor estratégia.

Desconfiança saudável não é frieza emocional — é autoproteção.

Coração e cautela podem coexistir

Existe certo romantismo moderno na ideia de conexões instantâneas. E muitas delas são legítimas, sinceras e felizes.

Mas a internet também ensinou uma lição menos poética: nem toda declaração apaixonada vem acompanhada de boas intenções.

Talvez o equilíbrio esteja justamente aí.

Nem desconfiar de todo mundo, nem desligar completamente o senso crítico quando o afeto aparece.

Porque amor pode começar por mensagem, chamada de vídeo ou aplicativo.

Mas, quando o romance exige urgência financeira antes de presença, transparência e confiança real… talvez seja prudente ouvir não apenas o coração, mas também o bom senso.

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